Neurocurso de Neuroengenharia

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Provando matematicamente a falência do ensino / aprendizado da matemática no WhatsApp

Hoje participei de uma discussão no Whatsapp que, no final das contas, provou-me que estamos falidos em termos de ensino / aprendizado de matemática.

Antes de eu entrar no mérito da discussão em si, quero deixar claro o meu entendimento de que nessa falência está o aluno envolvido até o pescoço, por mais que eu reconheça as diversas deficiências dos sistemas público e privado de ensino e de todos os seus respectivos agentes, minha classe de professor incluída.


Pois bem, eis o que se deu. Apresentou-se a seguinte imagem (em espanhol mesmo), seguida da pergunta “Quem consegue resolver?”:


Bom, eu quis começar a responder que esse é um problema que não se resolve com matemática, talvez só com poesia, afinal de contas 2 = 6 é falso; 2 = 2 dentro do universo da matemática convencional.


De qualquer maneira, a gente faz um exercício de boa vontade para depreender que o inventor da “charada”, quis escrever, na verdade:


Ou seja, a brincadeira é descobrir a regra (representada pelo símbolo de função ou f(x)) que relaciona os números da esquerda aos da direita para, então, poder-se calcular o resultado (aplicando-se a mesma regra) para o número 9.

Adianto que a falência ainda não é o uso inadequado ou omisso dos símbolos matemáticos. Vamos seguir explicando.


Bom, eu e alguns outros do nosso grupo do WhatsApp respondemos matematicamente, chamando o número da esquerda de “x” e o multiplicando por x + 1. Essa regra satisfaz todos os exemplos dados. Vejam: 


Outra regra, a de somar o quadrado do número com ele mesmo, é, na verdade, a mesma regra, pois:


Portanto, naturalmente, a resposta para 9, seria 90, afinal:


Correto? Segundo o autor da mensagem, não, o resultado correspondente a 9 seria 72. Já vi que a discussão ia degringolar...


Após explicações sofríveis, consegui depreender que o raciocínio usado era o de multiplicar o número da esquerda pelo número da linha que ele aparecia mais 2. Ou seja:



Assim sendo, o resultado para o número 9, que aparece na linha 6, seria:



Ou, explicando de outra maneira, multiplicam-se os números da esquerda por uma seqüência iniciada em 3: 2 . 3 = 6 / 3 . 4 = 12 / 4 . 5 = 20 / 5 . 6 = 30 / 6 . 7 = 42 / 9 . 8 = 72 .


Essa é uma resposta válida? Em minha opinião, ela é tão válida quanto 4327,8, ou pi, ou qualquer outro valor. A razão é que não há, no porco enunciado, elementos suficientes para depreender que é esta a regra. Caso o resultado para o número 9 (ou seja, 72) fosse apresentado de antemão, aí sim haveria elementos para então se perguntar de um próximo número qualquer. Sem isso, não há como depreender que a regra dos números consecutivos é válida.

Mas ainda aí não está a evidência de qualquer falência educacional. Poder-se-ia tratar somente de uma brincadeira sem graça, mal formulada, de Internet.

O problema vem quando as pessoas levam o resultado 72 a sério, afirmando convictamente que está é a lógica correta e, por conseguinte, que a eles se deve o título de gênio, como colocado no enunciado (“apenas para os gênios”). Entenda: muitos que acharam 72 realmente acreditam na sua lógica superior, sua capacidade de enxergar “além do quadrado”. Quase ninguém percebe que o problema é “ill posed” ou mal posto, preferindo as explicações tão mirabolantes quanto vazias dos gurus “internáuticos” de plantão, aqueles mesmo que gerenciam bem sucedidos websites voltados para concurseiros.

Ou seja, aqui mais valeu a malandragem que se aprende por postagens de facebook e zazap (o que o meu não-tão-velho-assim pai chama de cultura de almanaque) do que a velha (essa sim muito velha) e boa matemática, aquela mesma que constrói prédios, leva dispositivos humanos para as fronteiras do sistema solar e que inventou a Internet para se postar essas bobagens.

O segundo elemento da minha enorme preocupação surgiu quando, ao apresentar esse raciocínio, vi-me conversando com as paredes, encontrando eco apenas entre aqueles que tinham treinamento matemático de nível universitário, ainda que se trate da mais elementar aritmética de primeiro grau. Quase ninguém compreendeu este básico raciocínio.

Assim, se é para jogar essa tal matemática no lixo, permitam-me aqui provar que 2 = 1:


Ou seja, quem me deve mil reais, me deve na verdade dois mil reais.

O que me preocupa é que poucos sabem apontar o erro.

Podem me chamar de rancoroso e dinossauro, mas sou mais a velha e sólida formação matemática do que estes atalhos intelectuais distribuídos homeopaticamente na Internet que não levam a lugar algum.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Curso de Eletrofisiologia na 3a Semana de Neurociências da UFMG: imperdível

Pessoal,

Ainda há vagas para o curso de eletrofisiologia na 3a Semana de Neurociências da UFMG que antecede o congresso da SBNeC, contando com nomes de reconhecimento internacional como os doutores Fernando Lopes da Silva e Stiliyan Kalitzin. Vejam a programação das aulas:

09/09/13
08h - 12h 
Aula 1 - Bioeletrogênese: registros intracelulares, extracelulares, potenciais de campo, registros multiunitários (Daniel Medeiros);
Aula 2 - Práticas demonstrativas em Placa de Petri: estimulação e potenciais de ponta (Daniel Medeiros)
10/09/13
08h - 12h 
Aula 3 - Montagem de um set-up para aquisição de dados eletrofisiológicos (Vinícius Cota);
Aula 4 - Práticas demonstrativas em computador: técnicas de filtragem de sinal, processamento e digitalização (Márcio Moraes)
11/09/13
8h - 12h 
Aula 5 - Análise de sinal (Stiliyan Kalitzin);
Aula 6 - Epilepsia como um processo dinâmico (Fernando Lopes da Silva)

O link para se inscrever é esse aqui:

Eu, que também vou dar aula no curso, vou pedir para assistir também, porque, na minha opinião, aprender Eletrofisiologia e Epilepsia com esse pessoal é imperdível.



Até lá.
VRC

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Sobre homossexualismo e ativismo gay

O texto que copio abaixo é um dos melhores que eu encontrei na Internet. Ele é atribuído ao Dr. Dráuzio Varela, mas não tenho certeza se isso procede. De qualquer maneira, não importa. O que importa é que o conteúdo é muito bom.


DR. DRAUZIO VARELLA - HOMOSSEXUALIDADE

A homossexualidade é uma ilha cercada de ignorância por todos os lados. Nesse sentido, não existe aspecto do comportamento humano que se lhe compare.

Não há descrição de civilização alguma, de qualquer época, que não faça referência à existência de mulheres e homens homossexuais. Apesar dessa constatação, ainda hoje esse tipo de comportamento é chamado de antinatural.

Os que assim o julgam partem do princípio de que a natureza (ou Deus) criou órgãos sexuais para que os seres humanos procriassem; portanto, qualquer relacionamento que não envolva pênis e vagina vai contra ela (ou Ele).
Se partirmos de princípio tão frágil, como justificar a prática de sexo anal entre heterossexuais? E o sexo oral? E o beijo na boca? Deus não teria criado a boca para comer e a língua para articular palavras?
Se a homossexualidade fosse apenas perversão humana, não seria encontrada em outros animais. Desde o início do século 20, no entanto, ela tem sido descrita em grande variedade de espécies de invertebrados e em vertebrados, como répteis, pássaros e mamíferos.

Em virtualmente todas as espécies de pássaros, em alguma fase da vida, ocorrem interações homossexuais que envolvem contato genital, que, pelo menos entre os machos, ocasionalmente terminam em orgasmo e ejaculação.

Comportamento homossexual envolvendo fêmeas e machos foi documentado em pelo menos 71 espécies de mamíferos, incluindo ratos, camundongos, hamsters, cobaias, coelhos, porcos-espinhos, cães, gatos, cabritos, gado, porcos, antílopes, carneiros, macacos e até leões, os reis da selva.

Relacionamento homossexual entre primatas não humanos está fartamente documentado na literatura científica. Já em 1914, Hamilton publicou no Journal of Animal Behaviour um estudo sobre as tendências sexuais em macacos e babuínos, no qual descreveu intercursos com contato vaginal entre as fêmeas e penetração anal entre machos dessas espécies. Em 1917, Kempf relatou observações semelhantes.

Masturbação mútua e penetração anal fazem parte do repertório sexual de todos os primatas não humanos já estudados, inclusive bonobos e chimpanzés, nossos parentes mais próximos.

Considerar contra a natureza as práticas homossexuais da espécie humana é ignorar todo o conhecimento adquirido pelos etologistas em mais de um século de pesquisas rigorosas.

Os que se sentem pessoalmente ofendidos pela simples existência de homossexuais talvez imaginem que eles escolheram pertencer a essa minoria por capricho individual. Quer dizer, num belo dia pensaram: eu poderia ser heterossexual, mas como sou sem vergonha prefiro me relacionar com pessoas do mesmo sexo.

Não sejamos ridículos; quem escolheria a homossexualidade se pudesse ser como a maioria dominante? Se a vida já é dura para os heterossexuais, imagine para os outros.

A sexualidade não admite opções, simplesmente é. Podemos controlar nosso comportamento; o desejo, jamais. O desejo brota da alma humana, indomável como a água que despenca da cachoeira.

Mais antiga do que a roda, a homossexualidade é tão legítima e inevitável quanto a heterossexualidade. Reprimi-la é ato de violência que deve ser punido de forma exemplar, como alguns países fazem com o racismo.

Os que se sentem ultrajados pela presença de homossexuais na vizinhança, que procurem dentro das próprias inclinações sexuais as razões para justificar o ultraje. Ao contrário dos conturbados e inseguros, mulheres e homens em paz com a sexualidade pessoal costumam aceitar a alheia com respeito e naturalidade.

Negar a pessoas do mesmo sexo permissão para viverem em uniões estáveis com os mesmos direitos das uniões heterossexuais é uma imposição abusiva que vai contra os princípios mais elementares de justiça social.

Os pastores de almas que se opõem ao casamento entre homossexuais têm o direito de recomendar a seus rebanhos que não o façam, mas não podem ser fascistas a ponto de pretender impor sua vontade aos que não pensam como eles.

Afinal, caro leitor, a menos que seus dias sejam atormentados por fantasias sexuais inconfessáveis, que diferença faz se a colega de escritório é apaixonada por uma mulher? Se o vizinho dorme com outro homem? Se, ao morrer, o apartamento dele será herdado por um sobrinho ou pelo companheiro com quem viveu trinta anos?

segunda-feira, 25 de março de 2013

Do blog da SBNeC: Depressão na Pós-Graduação e Pós-doutorado


O que fazer com os estudantes e cientistas que não conseguem estudar e pesquisar?

Sergio Arthuro (1)

A imagem de nós cientistas no senso comum, como estereotipada por Einstein, é que somos meio loucos. De fato, como revelado recentemente pela revista Nature, parece que realmente não temos uma boa saúde mental, dada a alta ocorrência de depressão entre pós-graduandos e pós-doutorandos.

Os pós-graduandos são os estudantes de mestrado e de doutorado, enquanto os pós-doutorandos são os recém doutores em aperfeiçoamento, que ainda não conseguiram um emprego estável. Os pós-doutorandos são comuns há muito tempo nos laboratórios da Europa e dos Estados Unidos, já no Brasil este é um fenômeno recente.

Segundo o texto, boa parte dos estudantes de pós-graduação que desenvolvem depressão foram ótimos estudantes na graduação. Lauren, doutoranda em química na Universidade do Reino Unido, começou com dificuldade em focar nas atividades acadêmicas, evoluiu com medo de apresentar a própria pesquisa, e terminou sem nem mesmo conseguir sair da cama. Felizmente, Lauren buscou ajuda e agora está terminando o seu doutorado, tendo seu caso relatado no site de ajuda Students Against Depression, cujo objetivo é “desenvolver a consciência de que a depressão não é uma falha pessoal ou uma fraqueza, mas sim uma condição séria que requer tratamento”, segundo a psicóloga Denise Meyer, que ajudou no desenvolvimento do site.

Para os cientistas em início de carreira, a competição no meio acadêmico pode levar a isolamento, ansiedade e insônia, que podem gerar depressão. Esta pode ser acentuada se o estudante de pós-graduação tiver problemas extracurriculares e/ou com seu orientador. Já que a depressão altera significativamente a capacidade de fazer julgamento racional, o deprimido perde a capacidade de se reconhecer como tal. Aqui, na minha opinião, o orientador tem um papel fundamental, mas que na prática não tenho observado muito: não se preocupar apenas com os resultados dos experimentos, mas também com a pessoa do estudante.

De acordo com o texto, os principais sinais de depressão são: a) inabilidade de assistir as aulas e/ou fazer pesquisa, b) dificuldade de concentração, c) diminuição da motivação, d) aumento da irritabilidade, e) mudança no apetite, f) dificuldades de interação social, g) problemas no sono, como dificuldade para dormir, insônia ou sono não restaurativo (a pessoa dorme muito mas acorda cansada e tem sono durante o dia).

Segundo o texto, a maioria das universidades não tem um serviço que possa ajudar os estudantes de pós-graduação. Não obstante, formas alternativas se mostraram relativamente eficazes. Por exemplo, mestrandos e doutorandos poderiam procurar ajuda em serviços oferecidos a alunos de graduação; já os pós-doutorandos poderiam tentar ajuda em serviços oferecidos a professores, sugerem os autores do texto. A maioria dos tratamentos requer apenas uma sessão em que são discutidas as dificuldades dos estudantes, além de sugestões de como manejar melhor a depressão. Uma das principais preocupações é com relação à confidencialidade, que deve ser quebrada apenas se o profissional sentir que o paciente tem chance iminente de ferir a si ou a outrem. Segundo Sharon Milgram, diretora do setor de treinamento e educação do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, “buscar ajuda é um sinal de força, e não de fraqueza”.

Devo admitir que o texto chamou minha atenção por me identificar com o tema, tanto na minha própria experiência, quanto na de vários colegas de pós-graduação que também enfrentaram problemas semelhantes. Acho que o sistema atual de pós-graduação tem falhas que podem aumentar os casos de depressão, como as descritas a seguir:

1- O próprio nome “Defesa” no caso do doutorado

Tem coisa mais agressiva que isso? Defesa pressupõe ataque, é isso mesmo que queremos? Algumas pessoas vão dizer que os ataques são às ideias e não às pessoas. Acho que isso acontece apenas no mundo ideal, porque na prática o limite entre as ideias e as pessoas que tiveram as ideias é muito tênue. Mas pior é nos países de língua espanhola, pois lá a banca é chamada de “tribunal”.

2- Avaliações pouco frequentes

Em vários casos, principalmente no começo do projeto, as avaliações são pouco frequentes, o que faz com que o desespero fique todo para o final. No meu caso, os últimos meses antes da “Defesa” foram os piores da minha vida, pois tive bastante insônia, vontade de desistir de tudo etc. Pior também foi ouvir das pessoas que poderiam me ajudar que aquilo era “normal” e que “fazia parte do processo”… Isso não aconteceu apenas comigo, mas com vários colegas de pós-graduação. Acho que para fazer ciência bem feita, como todo trabalho, tem que ser prazeroso, e acredito que avaliações mais frequentes podem evitar o estresse ao final do trabalho.

3 – Prazos pouco flexíveis

Cada vez mais me é claro que a ciência não é linear, e previsões geralmente são equivocadas. Dessa forma, acredito que não deveria haver nem mestrado nem doutorado com prazo fixo. O pós-graduando deveria ter bolsa por 5 anos para desenvolver sua pesquisa, e a cada ano elaboraria um relatório sobre suas atividades e resultados. Uma comissão deveria julgar esse relatório para ver se o estudante merece continuar. Como cada caso é um caso, em alguns casos, dois anos já seriam suficiente para ter um resultado que possa ser publicado num jornal científico de reputação. Isso daria ao cientista a possibilidade de bolsa por mais 5 anos, por exemplo, para ele continuar sua pesquisa. Em outros casos, 5 anos de trabalho não é suficiente, o que pode ser por causa da própria complexidade da pesquisa, ou outros motivos como atraso na importação de material etc. Nesse caso, acho que o estudante deveria ter pelo menos mais 3 anos de tolerância para poder concluir sua pesquisa, caso os relatórios anuais sejam aprovados, e o estudante comprove que não é por sua culpa que a pesquisa está demorando mais que o previsto.

Senti falta no texto uma discussão com relação ao fato de que para os futuros cientistas que ainda não tem um emprego definitivo, a ausência de estabilidade financeira é também um fator que contribui para o estado de humor dessa classe tão específica e especial de seres humanos.

(1) Médico, doutor em Psicobiologia e Divulgador Científico

Sugestão de Leitura

Gewin, V. (2012) Under a cloud: Depression is rife among graduate students and postdocs. Universities are working to get them the help they need. Nature 490, 299-301.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Do Estadão: Puxadinho sem fronteiras

Não sou de republicar notícias do Estadão, mas com essa aqui eu concordo plenamente. O original foi publicado em 06 de março de 2013 e pode ser encontrado no link: 

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Com menos de dois anos, o programa Ciência sem Fronteiras, uma iniciativa acertada do governo federal, já começa a mostrar sinais de que está contaminado pela cultura do "puxadinho", que tão bem tem caracterizado a administração da presidente Dilma Rousseff.

O Ciência sem Fronteiras tem como objetivo internacionalizar o ensino superior no País, por meio da concessão de bolsas de estudo em universidades competitivas no exterior. A intenção, alardeia o governo, é "investir na formação de pessoal altamente qualificado nas competências e habilidades necessárias para o avanço da sociedade do conhecimento". Ainda se espera que esse objetivo seja alcançado, porque esse é um dos fatores dos quais depende o pleno desenvolvimento do Brasil, mas multiplicam-se evidências de que, por trás do palavrório repleto de boas intenções e metas ousadas, viceja a conhecida inépcia da administração lulopetista.

Um exemplo escandaloso disso é a decisão do governo de diminuir a exigência de conhecimento de alemão, francês, inglês e italiano para seleção de bolsistas, de modo que os candidatos com nenhum domínio desses idiomas poderão participar do programa. Com a medida, o governo pretende conseguir cumprir sua promessa de enviar 101 mil bolsistas ao exterior até 2015 - até agora, graças em grande parte ao obstáculo do idioma, apenas 22% dessa meta foi atingida. O governo oferecerá aulas intensivas de idiomas, de até dois meses, para tentar compensar a deficiência dos candidatos, mas especialistas salientam que isso não basta, já que os cursos na área tecnológica, principal foco do programa, exigem pleno domínio da língua em que são dados. Em dois meses, é improvável que os bolsistas possam atingir esse nível de proficiência. O governo reduziu a tal ponto a exigência de domínio do inglês que, no caso da seleção de alunos dos Institutos Federais de Educação Tecnológica e das Faculdades de Tecnologia (Fatecs) para estudar nos Estados Unidos, o candidato ganhará a vaga mesmo se não conseguir manter uma conversação básica. Não é possível imaginar que um bolsista com essas credenciais consiga ser bem-sucedido nas melhores universidades americanas e europeias.

Ante a evidente limitação de muitos candidatos, vários deles têm optado por concorrer a bolsas para estudar em Portugal, para driblar o obstáculo da língua. O problema é que a maioria dos bolsistas optou por universidades portuguesas que são consideradas mais fracas que as brasileiras, apesar do Ciência sem Fronteiras propagandear que tem convênios com "as melhores universidades do mundo". Um desses estudantes, ouvido pelo Estado (5/3), disse que o importante não era o curso em si, mas o "contato com a cultura europeia" - uma espécie de turismo à custa dos cofres públicos.

Para tentar contornar o problema, a Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível Superior (Capes) ofereceu a esses alunos em Portugal a oportunidade de estudar nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha e em outros países com universidades de ponta - sem necessidade de passar por teste de proficiência.

A precariedade do Ciência sem Fronteiras não é uma novidade. Entre 2011 e 2012, muitos dos estudantes enviados ao exterior receberam da ajuda prometida apenas a passagem aérea, e ficaram um bom tempo sem dinheiro para pagar o aluguel, a alimentação, os livros, o plano de saúde e o transporte.

Essa situação constrangedora é mais uma a revelar as práticas de um governo que precisa produzir continuamente números vistosos para alimentar seus slogans eleitoreiros, enquanto faz remendos grosseiros para esconder a fragilidade de suas alegadas conquistas.

Não se esperava que um programa com essa magnitude fosse isento de problemas e contratempos. No entanto, é notável que, na cartilha da administração petista, quando se trata de corrigir falhas e rumos, recorre-se, como regra, ao improviso. Enquanto isso, o Ciência sem Fronteiras, numa flagrante contradição em termos, seguirá formando esforçados monoglotas.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Conspiração internacional contra Nicolelis

Saiu hoje, na revista Nature


Intercontinental mind-meld unites two rats
But critics are sceptical about predicted organic computer.

Ed Yong
28 February 2013

Two rats were wired up together (here in an artist's impression) so that one would make decisions using sensory cues from the other.

The brains of two rats on different continents have been made to act in tandem. When the first, in Brazil, uses its whiskers to choose between two stimuli, an implant records its brain activity and signals to a similar device in the brain of a rat in the United States. The US rat then usually makes the same choice on the same task.

Miguel Nicolelis, a neuroscientist at Duke University in Durham, North Carolina, says that this system allows one rat to use the senses of another, incorporating information from its far-away partner into its own representation of the world. “It’s not telepathy. It’s not the Borg,” he says. “But we created a new central nervous system made of two brains.”

Nicolelis says that the work, published today in Scientific Reports1, is the first step towards constructing an organic computer that uses networks of linked animal brains to solve tasks. But other scientists who work on neural implants are sceptical. Lee Miller, a physiologist at Northwestern University in Evanston, Illinois, says that Nicolelis’s team has made many important contributions to neural interfaces, but the current paper could be mistaken for a “poor Hollywood science-fiction script”. He adds, “It is not clear to what end the effort is really being made.”

In earlier work, Nicolelis’s team developed implants that can send and receive signals from the brain, allowing monkeys to control robotic or virtual arms and get a sense of touch in return. This time, Nicolelis wanted to see whether he could use these implants to couple the brains of two separate animals.

His colleague Miguel Pais-Vieira started by training one rat — the encoder — to press one of two levers, as indicated by a light. An implant recorded neural activity in the rat's motor cortex (the area that controls its movements), compared it to earlier recordings, and converted it into a simpler signal: a single pulse representing one lever, or a train of them representing the other.

These pulses were delivered to the motor cortex of a second rat in the same lab — the decoder — which reacted by pressing its own levers. If it chose the right one, both rats got a reward. This happened 64% of the time — a low rate of success, but significantly greater than chance (see video).

The rats achieved a similar accuracy at another task in which they had to judge different stimuli with their whiskers, and implants linked their somatosensory cortices, the regions involved in touch. This link worked even when one rat was in Natal, Brazil, and the other in the Duke lab. 

But Andrew Schwartz, a neurobiologist at the University of Pittsburgh in Pennsylvania, notes that the decoders performed poorly, even though they had to solve only a basic task with just two choices. “Although this may sound like 'mental telemetry', it was a very simple demonstration of binary detection and binary decision-making,” he says. “To be of real interest, some sort of continuous spectrum of values should be decoded, transmitted and received.”

Better, stronger, faster
Nicolelis argues that even in this simple task, the rats showed some interesting emergent behaviours. Because the encoder always got an extra reward if the decoder chose correctly, it started making movements that were cleaner, smoother and faster than at the beginning. That increased the signal-to-noise ratio in its brain activity and inadvertently provided the decoder with signals that were easier to decipher.

Such interfaces have many applications, says Nicolelis, from creating organic computers to uniting different parts of the same brain that have been cut off by damage or disease. But Sliman Bensmaia, a neuroscientist from the University of Chicago in Illinois, says that if the goal is to make better neural prosthetics, “the design seems convoluted and irrelevant”. And if it is to build a computer, “the proposition is speculative and the evidence underwhelming”.

Nicolelis is undeterred: his team is already working to link the brains of four mice. The researchers are also set to start similar experiments with monkeys, in which paired individuals control virtual avatars and combine their brain activity to play a game together. “Rats don’t have a sense of self so it’s hard to say what the effect on the animals are,” he says, “but monkeys can collaborate in a much more complex way.”

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Do blog da SBNEC, ainda sobre o manifesto


Creio ser conveniente deixar de lado as discussões acaloradas e apaixonadas e tentar refletir um pouco sobre o real conteúdo do manifesto do qual sou signatário. Ele foi escrito com a intenção de ser objetivo e evitar possibilidades de interpretações de insinuações ocultas e é como tal que gostaria que fosse lido. Gostaria, portanto, de convidar a todos para me acompanhar numa re-leitura racional e objetiva do manifesto.

Os três primeiros parágrafos relatam fatos, objetivos e bem documentados. Eles são (aproveito para acrescentar dados adicionais para realçar a natureza dos fatos):

1. O propósito de um INCT é impulsionar a ciência nacional a partir da articulação de redes de grupos de pesquisa do país.
2. O INCeMaq é um INCT. Seu coordenador é o Prof. Nicolelis e os signatários do manifesto eram membros do corpo de pesquisadores e do comitê gestor desde sua criação em 2009 até 26 de julho de 2012.
3. Nos dias 1 e 2 de julho de 2010 o Coordenador e os signatários se reuniram em Natal na primeira reunião do comitê gestor. A reunião foi convocada pelo Coordenador através de e-mail aos signatários (de 05/05/10) com a seguinte frase: “Nessa ocasião gostaria também de agendar nossa primeira reunião de trabalho, para podermos planejar adequadamente as atividades do INCT e termos a oportunidade de promover uma discussão científica, onde cada membro do comitê gestor deverá apresentar suas pesquisas a todos do grupo.”
4. Nessa reunião o Prof. Márcio Moraes apresentou resultados preliminares de um experimento sendo realizado por seu grupo em que um rato era implantado com um receptor de infra-vermelho acoplado a um estimulador cerebral fixado ao crânio. O Coordenador do INCeMaq, Prof. Nicolelis, não demonstrou maior interesse pela apresentação do Prof, Moraes.
5. Quase três anos depois daquela reunião, o Prof. Nicolelis assina um artigo na revista Nature Communications que é a primeira publicação em revista científica internacional em que um implante craniano de captador de infra-vermelho é acoplado a um sistema de estimulação elétrica intra-cerebral.

Uma coisa importante a observar é que estes 5 fatos eram aqueles aos quais os signatários do manifesto tinham acesso na data em que o manifesto foi divulgado (22/02/2013). Decorre daí que são perfeitamente lógicas e cabíveis as perguntas feitas no quarto parágrafo do manifesto: (1) se o Prof. Nicolelis já estava trabalhando no seu projeto na Universidade de Duke em julho de 2010, porque não se manifestou na reunião do grupo coordenador? ou (2) se o Prof. Nicolelis não estava trabalhando, mas achou a ideia interessante, porque não procurou envolver o Prof. Moraes numa colaboração? Isto não constitui insinuação de plágio, mas são as duas únicas possibilidades lógicas dados os fatos 1-5 acima.

Ficamos preocupados que alguém pudesse ler o nosso manifesto como insinuação de plágio, e é por isso que deliberadamente incluímos a frase inicial do quarto parágrafo. O objetivo não é discutir plágio ou autoria de ideias. Sabemos que muitas das boas ideias em ciência ficam “no ar” por muito tempo e o que importa mesmo é quem publica primeiro um trabalho concretizando essas ideias. No caso em questão, o mérito e a primazia vão inquestionavelmente para o Prof. Nicolelis e seu grupo na Universidade de Duke.

O que nós queremos é que o manifesto seja lido e discutido em relação à pergunta colocada em primeiro lugar no quarto parágrafo: existiu, neste episódio, por parte do Coordenador do INCeMaq, a real intenção de promover a ciência nacional?

Agora já sabemos a resposta às nossas questões de natureza lógica do quarto parágrafo. Segundo o comentário do Dr. Romulo Fuentes feito ao nosso manifesto em 25/02/13, o Prof. Nicolelis e sua equipe na Universidade de Duke já vêm trabalhando no problema desde novembro de 2006. Isto pode, portanto, ser acrescentado como mais um fato à lista acima, porém é um fato que só era do conhecimento do Prof. Nicolelis à época da primeira reunião do comitê gestor em 2010.

Este fato é importante porque reforça a nossa pergunta: existiu, neste episódio, por parte do Coordenador do INCeMaq, a real intenção de promover a ciência nacional?

É óbvio que o Prof. Nicolelis, assim como qualquer um dos outros membros do comitê gestor, não tinha obrigação de revelar na reunião informações sobre qualquer uma de suas pesquisas em andamento. Atentemos, porém, para a natureza daquela reunião: (1) foi uma reunião convocada pelo Coordenador do INCT para que seus membros apresentassem e discutissem suas pesquisas; e (2) o objetivo de um INCT é agregar esforços no sentido de formar uma rede de colaboradores.

Tendo isso em mente, podemos imaginar hipoteticamente o que poderia ter acontecido caso o Prof. Nicolelis tivesse comentado na reunião que já estava desenvolvendo um projeto parecido com o do Prof. Moraes. Por exemplo, o Prof. Moraes poderia ter proposto uma colaboração ao Prof. Nicolelis; poderia ter sugerido que um de seus alunos na UFMG fosse à Duke fazer um estágio no laboratório do Prof. Nicolelis; poderia ter convidado o Prof. Nicolelis para visitar seu laboratório; poderia ter proposto que parte do projeto fosse feita no Brasil, em Belo Horizonte ou mesmo em Natal. As possibilidades são várias e todas elas envolveriam alguma forma de rede colaborativa com participação de pesquisadores brasileiros.

Entretanto, nada disso aconteceu e é daí que decorre nosso desapontamento com a maneira como o Prof. Nicolelis coordenou o INCeMaq durante o período em que fizemos parte dele. É em função desse desapontamento que concluímos nosso manifesto com o texto do quinto parágrafo. Gostaríamos que ele fosse lido, ponderado e discutido pela comunidade científica brasileira (incluindo o próprio Prof. Nicolelis), pelos dirigentes dos órgãos de fomento à ciência e pesquisa brasileiros e por toda a sociedade brasileira.

Gostaria que nosso manifesto não fosse tomado como um desabafo queixoso de um grupo de pesquisadores românticos, mas como um documento que possa levar a reflexões produtivas visando aprimorar a eficiência dos INCTs.

Antônio Carlos Roque da Silva Filho
Professor Associado
Departamento de Física, FFCLRP
Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O rei está nu: a participação de Nicolelis na ciência brasileira


É decepcionante e frustrante ver a resposta do diretor do IINN-ELS, contido nos comentários do blog da SBNEC (http://blog.sbnec.org.br/2013/02/eu-apoio-a-ciencia-brasileira), ao manifesto "Eu apoio a ciência brasileira" de professores que formavam o comitê gestor do INCeMaq à respeito da conduta do Sr. Miguel Nicolelis. É de se indagar como pode resultar tão pouco de um indivíduo com tão grande responsabilidade.

De forma geral, há uma série de inconsistências na resposta: se o trabalho vinha sendo desenvolvido há mais tempo e entre participantes do grupo de Nicolelis na Duke (Lebedev, Jim Meloy, Odoherty), como ele mesmo afirma e prova com documentos, como pode o artigo ser contabilizado no escopo do INCeMaq e como produção nacional? Se o Sr. Lebedev participou tão intensamente da discussão do trabalho tal como consta nos e-mails, por que ele não figura como autor do artigo, enquanto o Sr. Rafael Carra, o único co-autor integrante de fato do sistema brasileiro, não aparece em momento algum nas mensagens? A saída do grupo de professores do IINN-ELS foi uma decisão voluntária de romper uma parceria, como afirma o Sr. Fuentes, ou, segundo seu chefe, em entrevista concedida à época do racha, “o término da colaboração já estava previsto” (http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,instituto-de-nicolelis-enfrenta-apagao-cientifico,974226,0.htm)? Há outras ainda, mas não me alongarei nesse sentido porque isso não é o principal.

Bem mais importante que isso, a resposta é argumentativamente ruim. Trata-se de não mais do que um amontoado de vociferações repletas de falácias, previstas e desrecomendadas em qualquer manual de boas práticas de argumentação.

Logo de partida, tem-se a falácia por apelo da força, pois o tom geral da resposta é a ameaça de judicialização do manifesto, saída trivial para quem não tem muito o que falar. Aviso ao colega chileno: isso não assusta.

Depois, desfiam-se inúmeros ataques ad hominem contra o Prof. Sidarta Ribeiro, o Prof. Márcio Moraes e também os signatários do manifesto. A quantidade e a grosseria dos ataques (isso sim claramente judicializável) são comparáveis apenas às discussões de sessão de comentários do Youtube e violam o dever de urbanidade pelo qual deve zelar todo cientista e intelectual.

Por fim, quase a integridade do corpo da resposta é a falácia do argumento espantalho: atacar aquilo que simplesmente não foi falado.

Para mim, a razão dessa resposta emocional, desprovida de uma reflexão mais profunda e de uma agressividade juvenil é só uma: os manifestantes colocaram o dedo na ferida.

Na verdade, o teor do manifesto é bastante óbvio, apesar de aparentemente ignorado por completo pelo Sr. Fuentes: denunciar como é vazio o discurso de Nicolelis. E isso é algo que a grande maioria de nós, cientistas brasileiros, já sabe muito bem, mas que alguns (bem como grande parte do público leigo) insistem em não enxergar, talvez pelo apego ao que poderia (mas infelizmente não pode mais) representar a figura de Nicolelis à ciência e à auto-estima brasileira. É lamentável, mas é a realidade.

O discurso é vazio porque a missão do Sr. Nicolelis no Brasil é qualquer outra coisa ao invés de promover a ciência brasileira, este último objetivo bradado com toda sua poderosa voz midiática. Evidências nesse sentido começam pela sua (re-) entrada no sistema científico brasileiro, que banaliza décadas de esforços individuais na construção da ciência nacional. Seguem pelo tratamento dado à equipe científica original do IINN que na época sequer tinha o ELS (pós-doutorandos, alunos de PG e graduação). Ganham força por sua completa inépcia em cativar seguidores e colaboradores nacionais em nível de parceria (há apenas servidores). Têm seu ápice na época da cisão do instituto, com a ridicularização e humilhação de cientistas e professores da UFRN, estes com todo potencial para brilhar na ciência brasileira e mundial (é o que está acontecendo agora). Continuam com toda intensidade no episódio do esfacelamento do INCeMaq e, ao que parece, ainda não terminaram.

Este último ocorrido, relacionado à publicação na Nature Communications, é mais uma forte evidência do desacoplamento entre prática e discurso de Nicolelis e só não enxerga isso quem não quer. O sujeito era o coordenador de um INCT, responsável, por força de edital e contrato público, pela condução de um grupo de pesquisadores brasileiros a um objetivo comum, integrativo, com união de esforços e economia de recursos. O Sr. Nicolelis, neste contrato, penhorou caro sua competência científica na loja da ciência brasileira que passou a ser credora de seu talento. Sob esse prisma, três coisas podem ter acontecido naquela reunião de julho de 2010 e todas elas condenam a atitude do Sr. Nicolelis:

1)      Ele poderia estar dormindo na apresentação e simplesmente não tomou conhecimento da proposta do Prof. Márcio (aviso de ironia didática).
2)      Ele poderia estar acordado e, ao saber da proposta, interessou-se e resolveu duplicar os resultados à revelia dos idealizadores originais.
3)     Ele pode ter tomado conhecimento da idéia e, ao perceber que era muito análoga ao que já vinha fazendo em seu laboratório, tomou uma decisão claramente contrária à ciência brasileira. Resolveu ocultar suas estratégias, usurpar a confiança de todos que naquele momento revelavam suas melhores idéias numa clara demonstração de unilateralidade desta cooperação científica e, assim, simplesmente ignorar que seu colega copartícipe e colaborador em um grande projeto fomentado com dinheiro brasileiro, iria despender anos de esforços e recursos públicos extras, duplicando experimentos que ele certamente trabalharia para concluir antes. Miguel, apesar de sua assinatura no Termo de Outorga, optou por não colaborar e não prestar seus serviços acadêmicos à sua pátria. Aliás, isso é, no mínimo, um problema ético com experimentação animal.

Ora, sejamos honestos, todos nós sabemos que as ótimas idéias surgem de maneira muito difusa na ciência. Elas têm a ver com o zeitgeist e freqüentemente brotam espontaneamente do fértil solo do consciente coletivo acadêmico semeado não só pelas apresentações e conversas transversais em congressos pelo mundo, bem como pela cultura pop (quão rica de referências as ICM são na cultura pop!). Assim, é bastante comum, desde priscas eras, cientistas em pontos diversos do planeta apresentarem, quase simultaneamente, resultados de uma mesma grande descoberta. Ou seja, é bem possível que a idéia do 6o sentido simplesmente surgiu em mais de um lugar ao mesmo tempo e não tenho dificuldade de acreditar que Miguel e sua equipe a desenvolveram de maneira independente do Prof. Márcio. Ao que parece, o próprio Sr. Fuentes concorda com isso.

Agora, o que o Sr. Fuentes se recusa a entender é que o manifesto não trata disso. Não há um pleito pela paternidade da idéia. O que ele não percebe, mas que é muito óbvio, é que, ao não fazer qualquer tipo de menção ao seu semelhante trabalho na reunião de julho de 2010, o Sr. Nicolelis falha gravemente como pesquisador sênior, líder de uma equipe e coordenador de um INCT. Ele não logrou sucesso em agregar sua equipe, em otimizar esforços, em valorizar a ciência em território nacional, em preservar nossos limitados recursos de pesquisa e, enfim, em promover o sistema de ciência brasileiro. E por isso, há de se repensar o infindável financiamento científico a este pesquisador.

Para que fique bem claro: a despeito de toda a fúria da resposta, não há ilegalidades do Miguel e o manifesto não aponta neste sentido (aliás, esse tipo de competição científica predatória é louvável em alguns países em que sobram recursos físicos e humanos). Há apenas uma enorme contradição entre o que Sr. Nicolelis diz e o que faz: ele não é um colaborador, é um insaciável usuário do sistema.

Ninguém duvida da competência científica do Sr. Nicolelis. Ela (a competência) é grande e seu trabalho, sobretudo o mais antigo, é de apreciável qualidade. Por outro lado, há falhas que podem ser graves em seus estudos mais recentes de interfaces cérebro-máquina, como tem sido observado na comunidade acadêmica.  Isso acontece quando a propagando passa a ser mais importante que o conteúdo. Mais ainda, ele não é o primeiro e nem o único a trabalhar na área e é complicado dizer que seu conjunto da obra em ICM é o mais significativo, pois ignora competências como Andrew Schwartz, John Donoghue, John Chapin e tantos outros. É curioso, mas livros especializados na área reservam não mais do que parcos parágrafos sobre o cientista brasileiro.

Por fim, o gosto amargo na boca que fica agora e que muitos se recusam a sentir é a contundente percepção de que esse frenesi todo ao redor da figura de Nicolelis, propelido por enormes quantidades de publicidade individual, não foi mais do que a volúpia do embriagado flerte com a ilusão de posicionar o Brasil no topo da ciência mundial com um Nobel. Agora é mister curar a ressaca, entendendo que Nicolelis não é um messias que nos salvará a pátria pela ciência engajada. É sim, um competente player na ciência internacional, agressivo, altamente competitivo e individualista como muito se vê no Brasil e no mundo. Passou da hora de superarmos essa visão romântica e infantil para seguir com o trabalho sério e meritório que, enfim um dia, irá nos garantir a entrada no panteão da ciência pela porta da frente.

Prof. Dr. Vinícius Rosa Cota – UFSJ
Orientado por Márcio Moraes da iniciação científica ao doutorado na UFMG
Supervisionado por Sidarta Ribeiro no pós-doutorado no IINN-ELS

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Do Jornal da Ciência: Grupo de cientistas questiona a atuação do coordenador do INCT Interfaces Cérebro-Máquina (INCeMaq)


Há cerca de duas semanas, Miguel Nicolelis publicou artigo na Nature Neuroscience intitulado:

"Perceiving invisible light through a somatosensory cortical prosthesis" cujo link é este abaixo:

http://www.nature.com/ncomms/journal/v4/n2/full/ncomms2497.html

O Jornal da Ciência noticiou o achado logo em seguida. Hoje sai a notícia em seu website (http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=85935) que segue abaixo e que é imprescindível divulgar:

JC e-mail 4671, de 25 de Fevereiro de 2013
 
4. Grupo de cientistas questiona a atuação do coordenador do INCT Interfaces Cérebro-Máquina (INCeMaq)

Em carta encaminhada ao Jornal da Ciência, pesquisadores acusam o Professor Miguel Nicolelis de agir exclusivamente em proveito próprio

Veja a íntegra do documento:

Eu apoio a ciência brasileira

A iniciativa de criação dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT) visa impulsionar a ciência nacional a partir da articulação de redes formadas pelos principais grupos de pesquisa do País. Ligada a esse programa foi aprovada em 2009 a proposta do INCT "Interfaces Cérebro-Máquina" (INCeMaq), que tinha como coordenador o Prof. Miguel Ângelo Laporta Nicolelis, e nós abaixo assinados como pesquisadores principais e membros do Comitê Gestor.

O Comitê Gestor do INCeMaq se reuniu apenas duas vezes. A pauta do primeiro encontro, realizado nos dias 1 e 2 de julho de 2010, se restringiu à apresentação de projetos em andamento pelos laboratórios vinculados ao INCeMaq. Todos os que assinam este manifesto estavam presentes àquela reunião. Durante as apresentações individuais, representando o Núcleo de Neurociências da UFMG, o Prof. Dr. Márcio Flávio Dutra Moraes apresentou resultados preliminares de um novo experimento realizado pelo seu grupo, incluindo imagens de um rato implantado com um receptor de infra-vermelho (I-V) acoplado a um estimulador cerebral. O sensor captava ondas de I-V emitidos por LEDs, de forma que a intensidade do sinal detectado era proporcional ao alinhamento da cabeça do animal com o emissor. Esses sinais eram enviados a um computador para controlar um estimulador elétrico, que por sua vez estava conectado a um eletrodo bipolar implantado no cérebro do animal. A proposta,  em andamento, é o tema central de uma tese de doutorado e foi submetida a congressos locais, exames de qualificação, e defesa de trabalhos finais de graduação (ver imagens e documentos anexados a http://www.nnc.ufmg.br/hp/NNC_DOCS/)

Em 26 de julho de 2012, os integrantes do Comitê Gestor do INCeMaq foram comunicados por correio eletrônico pelo próprio coordenador que estavam sendo desligados deste INCT. Passados quase três anos desde a primeira reunião do Comitê Gestor, nos deparamos há poucos dias com o artigo publicado na revista científica Nature Communications e assinado pelo Prof. Nicolelis. No artigo é apresentado um implante craniano com um detector de infravermelho (I-V) acoplado a um sistema de estimulação elétrica intra-cerebral. Este documento não tem a intenção de discutir autoria de ideias, um assunto delicado dentro da temática de produção científica, mas pode ser resumido às seguintes perguntas: existiu neste episódio, por parte da coordenação do INCeMaq, a real intenção de promover a ciência nacional? Se o trabalho já estava sendo feito na Duke University durante a apresentação no INCeMaq, por que manter segredo durante a reunião? Se, por outro lado, o trabalho ainda não havia sido iniciado, mas Miguel Nicolelis considerou a ideia interessante, por que não firmou colaboração com o grupo da UFMG?

Havia a crença, endossada pelo Governo Federal, de que Miguel Nicolelis seria um parceiro de boas ideias oriundas da ciência nacional, pronto para alavancar, via INCT, uma produção de alta qualidade e vanguarda científica produzida no Brasil. Paradoxalmente, o artigo citado acima inclui afiliação do primeiro autor, Eric E. Thomson, ao Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lilly Safra (IINN-ELS), sendo ele pós-doutorando sediado na Duke University sem atuação no Brasil. Utilizar a produção de um laboratório no exterior como justificativa para prestação de contas de um financiamento nacional tem grande potencial de comprometer o trabalho sério e sólido das agências de fomento brasileiras nas últimas décadas. A produção deve ser resultante do investimento em infraestrutura para geração de conhecimento, formação de recursos humanos e nucleação de grupos de pesquisa EM TERRITÓRIO NACIONAL. Ao privar a Ciência Brasileira de uma parceria justa e prometida, o INCeMaq, na figura do seu coordenador Prof. Miguel Nicolelis, não agiu pelo interesse coletivo, como seria de se esperar de um coordenador de Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia, mas exclusivamente em proveito próprio.

Em ordem alfabética, assinam este documento de 22/02/2013 os professores Antônio Carlos Roque da Silva Filho (USP-RP), Cláudia Domingues Vargas (UFRJ), Dráulio Barros de Araújo (UFRN), Márcio Flávio Dutra Moraes (UFMG), Mauro Copelli Lopes da Silva (UFPE), Reynaldo Daniel Pinto (USP-SC) e Sidarta Ribeiro (UFRN).

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

E não é que Corisco voltou? Impeachment no Renan

Caros,

Em sendo funcionário público de universidade federal do interior do Brasil, em particular na terra de Tancredo Neves, já passei por situações em quantidade suficiente para amadurecer politicamente, compreender melhor os mecanismos da máquina governamental e perceber que hoje não se governa sem alianças políticas fortes, mesmo com aquelas com as quais não nos alinhamos ideologicamente, ou mesmo moralmente.

Hoje, portanto, compreendo e aceito com maior naturalidade que nossa vice-presidência esteja na mão da máfia PMDBista (não estou dizendo que gosto). Não sei se fora realmente necessário alianças com extremo detestável da nossa política, tal como se deu nas últimas eleições para a prefeitura de São Paulo (apesar que, ao que parece, deu certo). De qualquer maneira, a oposição obtusa e o isolamento ideológico, por mais puros que sejam, não funciona. É preciso combater o poder corrupto pelas beiradas, muitas vezes dando espaço a ele; bater de frente é suicídio.

Agora, Renan Calheiros de volta como presidente do senado já não dá. É demais para qualquer um com um mínimo de inteligência. É tratar a população como lixo subserviente e alienado. É negar ao indivíduo minimamente politizado qualquer sentimento de dignidade. É afirmar com toda a ênfase possível de que o povo é um mero detalhe nesse país. 

Vou dizer mais. Por mais que eu não seja um Dilmista, muito menos um PTista (apesar que a primeira tem subido no meu conceito), sou capaz de imaginar que a presidente deve lamentar profundamente o resultado das últimas eleições para presidência do senado. Lamenta, inclusive, não poder interferir, pois seria rapidamente imputada a ingerência do executivo no legislativo. 

Assim sendo, acho que temos uma nova e boa oportunidade para sermos ouvidos, trabalhando por retirar o Canalheiros da cadeira que tem o formato de seu traseiro. Apoio às campanhas pela Internet e divulgo aqui o link para petição no website da Avaaz:


Além disso, aproveito para deixar linkado um post neste blog, que relata meu encontro com o Sarney, na época da última absolvição do Canalheiros:


Indignado, mas percebendo uma mui sutil mudança no comportamento do brasileiro. Quem sabe um dia nossa indignação não gera alguma mudança? Acho que devemos continuar tentando.

Abraços!
V

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Paulo Metri decifra o enigma dos leilões de petróleo - artigo no Viomundo


Este artigo foi originalmente publicado no blog Viomundo, no dia 29 de janeiro de 2013. Este é o link:

Todo mundo sabe que eu não gosto muito do Lula (é meio óbvio que o autor fala no texto abrixo como se fosse o Lula). Mas eu gostei bastante desse artigo porque escancara as coisas como na verdade são. O poder de um presidente é mais limitado do que se imagina. Veja a briga que a Dilma está enfrente na questão das tarifas de energia elétrica. Aliás, a presidenta está me surpreendendo (positivamente) e hoje eu entendo melhor a razão do PMDB na vice-presidência.

Enfim, vamos ao artigo.

Não me decifraste e estás sendo devorado

por Paulo Metri*, no Correio da Cidadania

“Cheguei ao poder com grande apoio popular, graças ao discurso de luta por uma vida melhor para todos, mas também a acordos com os setores mais retrógrados da nossa sociedade. A ‘Carta aos brasileiros’, enigmática ao cidadão comum, representou um recado bem entendido pela elite. Depois de três tentativas frustradas para chegar à presidência, apreendi que as mudanças no Brasil, país com a mídia dominada, têm que ser parcimoniosas. Quase como tendo que haver consentimentos dos que dominam a sociedade.”

“Nunca fui um revolucionário por várias razões. Em primeiro lugar, porque minha natureza é a de um negociador e nunca foi a de um guerreiro, na acepção primeira da palavra. Em seguida, porque o povo, com o presente grau de percepção, não quer uma revolução. Creio até que, mesmo com alto grau de compreensão do mundo, ele também não irá querer. Finalmente, não pode ser esquecido que muitos dos revolucionários têm morte prematura.”

“Contudo, mesmo reformista, orgulho-me em dizer que, durante meu governo, persegui à risca meu discurso de campanha e trouxe uma vida melhor para dezenas de milhões de irmãos. No que era básico para mim, não fraquejei em nenhum instante. Sei que tive erros, praticados consciente ou involuntariamente. Quando errei conscientemente, tenham certeza que estava cedendo a alguma pressão que, se negada, poderia fazer fracassar, por exemplo, todo o projeto de inclusão social em curso.”

“Troquei opções sem correlação alguma, mas que o momento as transformava em moedas de troca. Sem corresponder à realidade, só para ajudar o entendimento, me deparava com dilemas do tipo: receber apoio da bancada secreta e poderosa dos banqueiros a uma política externa independente em troca do atendimento aos interesses pecuniários deles. A capacidade de mobilização deles no Congresso só é comparável à da bancada ruralista. Assim, reconheço que existiram setores cujos desempenhos deixaram a desejar. Não avancei muito na reforma agrária, por exemplo, o que me deixa frustrado.”

“Aprendi com muitos dos que estavam ao meu lado, mas o ministro das Relações Exteriores do meu governo tem um crédito especial comigo. Resumiria o que aprendi com ele, desta forma: ‘não se é grande em nível internacional, se não se imagina grande, não se planeja para ser grande e não se age de forma grandiosa’. Hoje, creio que abri muito a guarda na entrega do petróleo nacional, a menos de quando retirei 41 blocos do Pré-sal da nona rodada. Falo das rodadas de leilões do nosso petróleo. Segundo o ensinamento aprendido, entregar petróleo sem quase nenhum usufruto para a sociedade não corresponde a ‘agir de forma grandiosa’. Mas, só fiquei consciente deste fato quando o término do meu governo estava próximo.”

“Têm instantes que tenho vontade de dizer à minha sucessora: ‘Não faça isto!’ Digo isso com relação à décima primeira rodada, que foi recentemente aprovada por ela. Ainda mais que querem agora ofertar, também nesta rodada, além dos blocos inicialmente previstos, aqueles oriundos da fracassada oitava rodada. O objetivo escamoteado é diminuir por asfixia financeira a participação da Petrobras nas futuras concessões. Assim, mais blocos serão destinados às empresas estrangeiras ainda sob a lei socialmente incorreta no 9.478. Bem que os petroleiros sempre disseram que o Brasil não precisa ter pressa para produzir petróleo, pois a Petrobras já garante seu abastecimento por mais de 40 anos. Porém, não falo com minha sucessora, pois, afinal de contas, o governo é dela.”

“Por isso, acusam, com certo grau de razão, que meu partido e eu somos pouco conscientes com relação à questão nacional. Sem ser xenófobo, hoje, creio que há necessidade de se privilegiar a exploração das riquezas nacionais da forma que mais beneficia a nossa sociedade, o que ocorre em geral com empresas genuinamente nacionais. Enfim, ninguém está completamente pronto para ser presidente.”

“Entretanto, a recuperação dos salários, o aumento do número de pessoas empregadas, a ampliação e o acréscimo do valor do Bolsa-Família, o aumento do número de universidades públicas, a ampliação das vagas disponíveis nas existentes e o Pro-Uni são algumas das realizações das quais me orgulho. Enfim, durmo tranquilo. Fiz tudo que queria e podia fazer e, muitas vezes, tive que criar com esforço condições para as coisas boas acontecerem.”

“Se vocês tivessem entendido tudo isso e dado mais apoio político a mim ou a qualquer outro governante socialmente comprometido, mais poderia ter sido conquistado. A verdade é que quem lhes devora não sou eu, contrariando o enigma da esfinge. São os cartéis, inclusive muitos estrangeiros, que ainda não foram enquadrados. Estão soltos porque não há reação de vocês. Contudo, sei que, com a atual mídia controlada pelo capital, fica difícil o povo tornar-se consciente. A menos que, aos poucos, ele migre para canais de informação mais honestos.”

Neste ponto, acordei da minha divagação, na qual buscava explicações racionais, ou seja, buscava decifrar.

*Conselheiro do Clube de Engenharia

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Os que devem morrer - de Mauro Santayana

Recebi por e-mail o link para essa (mais uma) brilhante postagem do Mauro Santayana. Estou ficando fã desse camarada. Tenho que compartilhar com vocês...


Os que devem morrer - de Mauro Santayana


A ciência prolonga a vida dos homens; a economia liberal recomenda que morram a tempo de salvar os orçamentos. O Ministro das Finanças do Japão, Taso Aro, deu um conselho aos idosos: tratem logo de morrer, a fim de resolver o problema da previdência social.

Este é um dos paradoxos da vida moderna. Estamos vivendo mais, e, é claro, com menos saúde nos anos finais da existência. Mas, nem por isso, temos que ser levados à morte. Para resolver esse e outros desajustes da vida moderna, teríamos que partir para outra forma de sociedade, e substituir a razão do “êxito” e da riqueza pela ética da solidariedade.   

Ocorre que nem era necessário que esse senhor Taso Aro – que, em outra ocasião, ofereceu o Japão como território seguro para os judeus ricos do mundo inteiro – expusesse essa apologia da morte. A civilização de nosso tempo, baseada no egoísmo, com a economia servidora dos lucros e dos ricos, e, sobretudo, dos banqueiros, é, em si mesma, suicida.

É claro que, ao convidar os velhos japoneses a que morram, Aro não se refere aos milionários e multimilionários de seu país. Esses dispensam, no dispendioso custeio de sua longevidade, os recursos da Previdência Social e dos serviços oficiais de saúde de seu país. Todos eles têm a sua velhice assegurada pelos infindáveis rendimentos de seu patrimônio.

Os que devem morrer são os outros, os que passaram a vida inteira trabalhando para o enriquecimento das grandes empresas japonesas e multinacionais. Na mentalidade dos poderosos e dos políticos ao seu serviço, os homens não passam de máquinas, que só devem ser mantidos enquanto produzem, de acordo com os manuais de desempenho ótimo. Aso, em outra ocasião, disse que os idosos são senis, e que devem, eles mesmos, de cuidar de sua saúde.

Não podemos, no entanto, ver esse desatino apenas no comportamento do ministro japonês, nem em alguns de seus colegas, que têm espantado o mundo com declarações estapafúrdias. O nível intelectual e ético dos dirigentes do mundo moderno vem decaindo velozmente nas últimas décadas. Não há mistério nisso. Os verdadeiros donos do mundo sabem escolher seus serviçais e coloca-los no comando dos estados nacionais.

São eles, que, mediante o Clube de Bielderbeg e outros centros internacionais desse mesmo poder, decidem como estabelecer suas feitorias em todos os continentes, promovendo a ascensão dos melhores vassalos, aos quais premiam, não só com o governo, mas, também, com as sobras de seu banquete, em que são servidos, além do caviar e do champanhe, o petróleo e os minérios, as concessões  ferroviárias e nos modernos e mais rendosos negócios, como os das telecomunicações.

A civilização que conhecemos tem seus dias contados, se não escapar desses cem tiranos que se revezam no domínio do mundo.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

ONG denuncia monopólio da mídia no Brasil

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Notícia publicada originalmente no website da Carta Capital, em 24/01/13, no website:

PARIS (AFP) – A organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) denunciou nesta quinta-feira 24 o monopólio midiático no Brasil, que parece “pouco modificado, 30 anos após a ditadura militar (1964-1985)”.
A ONG definiu o Brasil como o “país dos 30 Bersluconi”, em referência ao magnata italiano da mídia e ex-primeiro ministro italiano.
Uma investigação da RSF, realizada em novembro e revelada nesta quinta-feira, mostra que fora uma dezena de grupos que dividem o monopólio da informação principalmente no eixo Rio-São Paulo, o País “conta com múltiplos meios de comunicação regionais, fragilizados pela extrema dependência em relação aos grandes centros de poder nos estados”.
Uma tutela que afeta diretamente a independência” da imprensa, além de ser um “vetor de insegurança”, ressalta a organização. A ONG lembra que 11 jornalistas e blogueiros foram assassinados no Brasil em 2012, o que coloca o país na quinta posição entre as nações com mais registros de mortes na área. Dois outros foram forçados ao exílio por questões de segurança.
No ano passado, a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) colocou o Brasil na lista dos países mais perigosos para o exercício da profissão na América Latina, onde 19 assassinatos de jornalistas foram denunciados, seis deles no Brasil.
Devido a este cenário, a organização considerou o Brasil como uma espécie de “país dos 30 Bersluconi”.
O Brasil apresenta um nível de concentração de mídia que contrasta totalmente com o potencial de seu território e a extrema diversidade de sua sociedade civil”, explica a ONG de defesa da liberdade de imprensa.
O colosso parece ter permanecido impávido no que diz respeito ao pluralismo, um quarto de século depois da volta da democracia”, assinala a RSF.
Segundo a ONG, um dos problemas endêmicos do setor da informação no Brasil é a figura do magnata da imprensa, que “está na origem da grande dependência da mídia em relação aos centros de poder”.
Dez principais grupos econômicos, de origem familiar, continuam repartindo o mercado da comunicação de massas”, lamenta a RSF.
Sempre segundo a RSF, a este sistema se acrescenta a censura na internet e denúncias que levaram ao fechamento de blogs durante as eleições municipais de 2012.
Nesse sentido, citou o caso do diretor do Google Brasil, que ficou preso brevemente por não retirar do YouTube um vídeo que teoricamente atacava um candidato a prefeito.
A organização faz referência a Fábio José Silva Coelho, que foi preso pela Polícia Federal em setembro passado a pedido do candidato a prefeito de Campo Grande, Alcides Bernal.
Para reequilibrar o cenário da mídia brasileira, a Repórteres Sem Fronteiras recomenda reformar a legislação sobre a propriedade de grandes grupos e seu financiamento com publicidade oficial, assim como a melhoria da atribuição de frequências audiovisuais para favorecer os meios de comunicação e um novo sistema de sanções que não inclua o fechamento de mídias ou páginas, entre outras medidas.
Leia mais em AFP Movel.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Sobre cotas: releitura de um clássico

Salve,

A imagem original foi consagrada como brilhante dentro e fora dos muros do facebook (os dois primeiros painéis nomeados, respectivamente, igualdade e justiça).

Eu acho ela gravemente limitada. 

Primeiro porque universidade não é prêmio como a possibilidade do entretenimento do baseball. Em segundo lugar, assume que um é menor que o outro. Terceiro, a exclusão de negros e pobres não é condição biológica e irreversível como é o caso do baixinho. Por fim, por que é que eles estão assistindo o jogo do lado de fora do estádio? Não deveriam estar sentados na arquibancada onde o jogo é visível para todos?

Enfim, podem me chamar de reacionário, mas é assim que eu vejo as questões das cotas nas universidades. Tomo a liberdade de plagiar a imagem original (se soubesse o nome do criador, daria os créditos). 

Sou contra cotas e a favor da verdadeira inclusão de negros, índios e pobres para muito além de paliativos populistas. 

Sou muito a favor do debate, educado e sem assumir a premissa de quem é contra as cotas é "herdeiro da casa grande" e blah, blah, blah.

Enfim, este é o clássico:



E essa é a minha releitura:



Abs.
V

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Ainda sobre o BBB

Assisti a esse filme recentemente e acho que tem muito a ver com o meu último post sobre o BBB. Apesar da qualidade cinematográfica mediana e uma certa carga de preconceito, eu recomendo muito!


Abraços!
VRC

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Sobre o BBB e o criticismo

Salve pessoal, 

Esse é outro post que veio de uma resposta no facebook. 



Essa é a minha resposta (o comentário original vem mais abaixo):


Eu adoro picanha argentina, muqueca capixaba, comida tradicional nordestina ou comida japonesa e fico numa grande alegria quando tenho a oportunidade de experimentar alguma comida exótica ou regional, como a káposzta húngara. De vez em quando eu também como um McDonald's com coca-cola ou mesmo uma coxinha.

Eu adoro filmes cult do cinema europeu como Rocco e Suoi Fratelli e as Bicicletas de Belleville ou um americano cabeça como Syriana. Outras vezes eu sintonizo no Jason Stathan dando porrada em todo mundo. Já o BBB eu não engulo (opção minha).

Estou falando tudo isso simplesmente para dizer que até um rabugento como eu gosta das coisas mundanas do prazer carnal. É uma parte importante da psiquê humana que tem que ser valorizada e alimentada (lembro do livro do Pierre Veil: O Corpo Fala). Nesse sentido, eu considero BBB válido como entretenimento de baixa qualidade intelectual, como McDonald's com coca-cola é de baixa qualidade nutritiva mas ainda assim válido como culinária.

O que me irrita nesse tipo de post e na situação como um todo são duas coisas:

1) A crítica à crítica. Há uma corrente cada vez mais forte para nos transformar em anencéfalos apáticos que não emitem opinião sobre coisa alguma. Bom, a liberdade permite que cada um consuma o entretenimento que quiser, mas ela também permite que eu diga convicto de que BBB é uma bosta (perdoem-me o francês) e lixo cultural da pior espécie, pois se baseia na exploração rasteira de idiotas submetidos ao ridículo por migalhas. Por outro lado, permite que a Natália aí de cima diga que gosta do BBB, apesar disso, e que é um escroto que se acha superior quem diz que BBB é uma bosta. Beleza, tudo é válido e ela ser uma idiota e eu um escroto é melhor do que não sermos coisa alguma. Assim, a qualidade do BBB como entretenimento, bem como futebol, política e religião, são das coisas que mais temos que discutir. E deixe estar a diferença, deixe vir as críticas, que não são fúteis de jeito algum! 

2) A Globo como veículo de entretenimento. Apesar de aceitar como democraticamente legítima a veiculação do lixo como opção de entretenimento, incomoda-me muito a exclusividade desse padrão cultural. A Globo só traz lixo, só o da pior espécie. Para mim, o que os executivos da Globo querem dizer com isso é que eles consideram a população um amontoado de imbecis que não consegue apreciar coisa alguma além da esquete humorística repetida à exaustão, a vergonha alheia, a exposição ao ridículo, a fofoca e o noticiário mercantil, político partidário de direita e de tablóide. Esta emissora me ofende como telespectador e é por isso que, há um bom tempo, eu não mais a assisto. Confesso que eu tenho um verdadeiro preconceito de tudo que vem da Globo. Incomoda-me muito, ainda, a razão por trás da manutenção desse padrão que, na minha opinião, é manter a população sem capacidade de introspecção ou reflexão intelectual, ao mais belo estilo pão e circo. Irrita-me como ninguém mais quer saber de desenvolvimento intelectual, não só não mais valorizando a cultura, mas na verdade a menosprezando. 

Antes eu tinha asco pela ignorância. Hoje, retificado, percebi que muitas vezes a ignorância não é uma escolha, mas sim, uma fatalidade. Por isso, meu asco agora é pelo desejo de ignorância que tantos brasileiros carregam. A do poder constituído, execrável na mesma medida, é, ao menos, mais compreensível.

Mas enfim, posso estar errado. Fiquem à vontade para criticar. Talvez eu responda, talvez não.


Minha resposta foi a esse comentário:


BBB e a futilidade (de quem critica)

Chegou aquela época em que não podemos falar em BBB que na hora aparece alguém dizendo “parem de falar desse lixo, BBB não é cultura”. E quem disse que eu assisto BBB pra ficar mais culta? O legal é que a maioria dessas pessoas ainda nem completaram o Ensino médio e leram pouquíssimos livros na vida. Não que eu me importe com a questão dos livros, porque pra mim lê quem quer e apenas fazer isso não confere o título de ”fodão” a ninguém.

O que me irrita é esse pedantismo todo. Essa de ”sou bom demais pra ver essa porcaria que não é cultura”. Meu amigo, isso é um programa de entretenimento. A gente não vê pra ficar mais inteligente, a gente vê pra passar o tempo, se divertir, dar umas risadas, sentir vergonha alheia. Já pensou se todo mundo pensasse assim? A vida seria uma bosta. “Ah, não vou mais à praia porque praia não vai acrescentar nenhuma cultura à minha vida”, “Ah, não vou mais mais sair pra dançar com meus amigos porque isso não vai me deixar mais inteligente”, e assim sucessivamente.

O povo quer rir, quer chegar em casa depois de um dia cheio e estressante no trabalho e relaxar. Quer ver BBB? Lindo. Quer ler um livro? Ótimo. Quer simplesmente dormir? Beleza. As pessoas têm uma mania muito escrota de tentar se colocar superior às outras, como se isso as tornasse melhor. Vou contar uma coisinha: isso só faz de vocês uns chatos.

Falei sobre isso no twitter e um seguidor se atreveu a comparar BBB com filantropia, dizendo que as pessoas deveriam investir tempo ajudando quem precisa. ALGUÉM MERECE LER UMA PORRA DE COMPARAÇÃO DESSAS? Esse não deve nem doar roupa pra Igreja, coitado. Outro falou que o Brasil está uma merda por causa do BBB. Ah se esse povo investisse tempo protestando contra os políticos e prefeitos coronelistas que tiram tudo de gente que não tem nada… Mas estão ocupados demais votando no Tiririca como “protesto” e criticando o BBB na internet.

BBB é um programa pra passar o tempo e se divertir, e eu não espero nada mais dele. E se você espera, o único burro aqui é você."

- Natália Penas 


Abraços web-náuticos.
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